terça-feira, 17 de março de 2015

Voa, Canarinho, voa.

Impossível não traçar um paralelo entre o fatídico dia 08 de Julho de 2014, data em que o Brasil foi eliminado da Copa do Mundo pela Alemanha, na República dos "Bananas", e o dia 15 de Março de 2015, data em que milhões de brasileiros uniformizados novamente de "bananas", foram às ruas protestar contra os seus representantes eleitos, isto a apenas dois meses no curso do novo mandato.



Em ambos os embates, os "bananas" retornaram aos seus lares desorientados, sem saber ao certo o que lhes tinham atingido, numa clara evidência que a doutrinação cultural promovida pelos instrumentos governamentais nos últimos 12 anos, começa a produzir efeitos, isto é, o senso crítico é abatido por um intenso bombardeio midiático e legislativo que anula a capacidade de dissociação das crises, com vistas a perpetuar o projeto de poder vigente.

Das bandeiras que mais revelaram a desorientação política e cultural dos nossos canarinhos circulando fora das gaiolas, certamente o pedido de intervenção militar das ruas é o mais atormentador, pois revela um cenário em que a maioria esmagadora dos cidadãos encontram-se desprovidos do mínimo de criticidade em relação às causas e aos efeitos dos eventos históricos e políticos dos últimos 30 anos, isto é, reprovamos no quesito do exercício das liberdades democráticas ao sinalizarmos a volta ao poder do autoritarismo da instituição militar, que massacrou todas os direitos e as garantias individuais e coletivas nos porões de um Estado Inquisitivo e barbarizador do seu povo, onde uma geração de mártires políticos entregaram as suas vidas para garantir o gozo do Estado de Direito atual.

Em meio à multidão, onde o amarelo da armadura confundiu-se com a palidez do movimento, outro grito, além da volta dos generais, tornou-se uníssono: o Impeachment de Dilma Rousseff.

Quando os caras pintadas de 1992 foram às ruas exigir o Impeachment do então Presidente da República, o hoje indiciado pela Operação Lava Jato Senador Fernando Collor de Mello, era de conhecimento notório da turma do Lindbergh Farias, hoje também Senador Petista investigado pela Lava Jato, as relações espúrias entre o chefe do executivo e o seu tesoureiro de campanha, Paulo César Farias, o que deu legitimidade ao movimento de rua que culminou com a renúncia do "Caçador de Marajás".

Até o presente momento, é consenso entre os mais notórios juristas e magistrados do país, não haver base constitucional ao ingresso de um processo de Impeachment contra a Presidente da República por inexistir evidências, tão pouco provas que ela tenha cometido crimes comuns ou de responsabilidade funcional. Evidentemente, a eterna aspirante a bolchevique sabe disso, o que nós não sabemos, é que qualquer do povo pode protocolar o pedido de impeachment perante a Câmara dos Deputados, desde que instruído com as provas dos crimes cometidos, desta forma, Dilma avalia os protestos com extrema tranquilidade, pois sabe que cantarolar um estrangeirismo vocabular pelas ruas é o que faz o canarinho quando foge da gaiola e não sabe onde pousar. 









segunda-feira, 2 de março de 2015

O Velório de 2015.

Não posso fazer parte do coro popular que afirma que o ano civil iniciou-se após o Carnaval, quando na verdade uma série de eventos políticos, econômicos e sociais me levam a constatação que 2015 é um natimorto que tenta sem sucesso ensaiar o seu primeiro suspiro, já com a certidão de óbito pronta. Previdente que sou, preparo-me para o inevitável: um velório dolorido e um luto intenso, a surpresa não me pega mais, pois no cenário das previsões, por menos funestas que fossem, o meu otimismo foi destruído com o resultado das eleições de 2014.

A paralisação dos profissionais de transporte rodoviário me mostrou a força atormentadora do fantasma do desabastecimento dos combustíveis e dos alimentos, com a consequente explosão do consumo, tida como muito bem vinda por muitos empresários abutres que enriquecem nas macro crises, mas revelaram também a lógica maquiavélica do protesto, onde a busca pelos direitos de uma classe em específico, justificou a agressão ao direito de ir e vir de todos os cidadãos brasileiros. 

Nenhuma paralisação ou greve como a dos caminhoneiros, me abriu tanto os olhos quanto esta, nem mesmo aquela manifestação dos jovens professores e das mestras de cabelos brancos grevistas em Curitiba que me constrangeram ao reapresentar a escola que estudei e a universidade onde gerei os meus sonhos profissionais, a décadas tratadas com o descaso político, sendo sucateadas como banheiros públicos abandonados, mas saudosismo a parte, não há boas surpresas na política educacional brasileira desde sempre.

O cenário das ressacas acumuladas pelo brasileiro no último ano é desolador: o vexame da copa do mundo e o emprego de dinheiro público desmedido no evento, a inutilidade do movimento vem pra rua frente ao resultado das urnas em 2014, a intensificação das crises em 2015: aumento das tarifas públicas de água e energia, o preço dos combustíveis em correção exponencial, os cortes nos investimentos em infraestrutura, a corrupção endêmica e a greve generalizada nos setores públicos essências serão os componentes da fatura que iremos arcar, independentemente de irmos às ruas em 15 de Março de 2015 para pedirmos o impeachment da Presidenta, preparem a coroa de flores.